Somos todos índigenas?

Por: Paulo Henrique Costa Matos

04/11/2015 - 17:20h

 

Terminado os 1° Jogos Mundiais Indígenas podemos constatar que aquele foi um acontecimento ímpar não só para mostrar a importância planetária da diversidade cultural de raças, costumes, crenças e entrelaçamento social pelo esporte, cultura e projeção do Tocantins e de Palmas como um cenário de integração, multiculturalidade e respeito ao diferente, a diversidade e ao tradicional. Mas também para provar que o Brasil é um país corrupto, violento e que ameaça seus povos indígenas apesar da hipocrisia de dizer que “Todos Somos Indígenas”.

 

Se os Jogos Mundiais Indígenas foram um acontecimento cultural e esportivo, intensamente rico e de alta projeção para seus organizadores, ele não pode deixar de ser um momento de reflexão sobre o que está  ocorrendo na vida dos povos indígenas brasileiros, que continuam a enfrentar a marginalização, a pobreza extrema, diversas violações dos direitos humanos e violências, sendo muitas vezes arrastados para conflitos e disputas de terras que ameaçam o seu modo de vida e mesmo sua sobrevivência.

 

Lamentavelmente os povos indígenas brasileiros vêm enfrentando o agravamento de sua condição de vida com ameaças, invasões, torturas, agressões, precarização das políticas públicas e assassinatos em todo território nacional. Um exemplo dessa barbárie e retrocesso são os ataques que estão ocorrendo contra uma das etnias presentes nos Jogos Indígenas, o povo Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, onde vivem cerca de 45 mil indígenas desta etnia, considerada a segunda maior população indígena do país.

 

Para ficar apenas nos problemas desse povo podemos afirmar que eles vivem hoje uma situação de genocídio praticados por pistoleiros, capangas, grupos paramilitares, com envolvimento de fazendeiros e políticos da região, gerando uma situação de extrema vulnerabilidade sociocultural.

 

Inúmeras comunidades indígenas brasileiras, a exemplo dos Guarani-Kaiowá, vivem há décadas em situação de acampamentos provisórios, na beira de estradas, sem acesso aos seus territórios tradicionais e sagrados, vivendo todo tipo de privações, violências, desde morte por atropelamento, fome, tortura e assassinatos, como o recente do líder Semião Vilhalva, assassinado no dia 29 de agosto, no município de Antônio João (MS), na fronteira com o Paraguai, ou ainda a tentativa de assassinato do cacique Erpídio Pires, gravemente ferido, na tekona (terras de ocupação tradicional) Potrero Guasu, no município de Paranhos (MS).

 

O relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil”, divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário) mostra que em 2014 houve 248 casos de violência registrados contra indígenas em todo o Brasil e um alarmante número de 138 índios mortos, com um crescimento de 130% no número de índios assassinados em 2014, já em 2013 foram registradas 53 mortes violentas. As mortes foram ocasionadas, em sua maioria, por violações aos direitos das comunidades indígenas no país descritos em “conflitos extremamente graves”.

 

Os dados apontam ainda que em 2014 ocorreram 50 registros de ameaças de morte e tentativas de assassinato contra índios em todo o Brasil. Os estados que lideram as ocorrências são Maranhão, Pará, Paraná, Minas Gerais e Bahia. Segundo o CIMI: “Nestes e nos demais Estados são notórias outras agressões contra a pessoa, tais como espancamentos, humilhações e intimidações, em função dos conflitos resultantes de litígios, invasões territoriais e da falta de providências administrativas para a demarcação das terras”.

 

Essa situação trágica e terrível só demonstra que os Jogos Indígenas ocorrem num momento histórico muito importante para os indígenas brasileiros e por isso mesmo não pode ser apenas uma festa esportiva e cultural, mas também um momento de reflexão sobre a democracia racial brasileira, que é um mito operado de forma a evitar a percepção que somos uma sociedade hierarquizada, que opera por meio de gradações da cor da pele e uma ideia de civilização bastante excludente, incapaz de enfrentar a marginalização, pobreza extrema e outras violações dos direitos humanos. Que os jogos sirvam para que o Brasil descubra que somos todos indígenas!

 

Paulo Henrique Costa Mattos, professor de Antropologia do Centro Universitário UNIRG

 

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