Ser ou não ser, eis a questão!

Por: Paulo Albuquerque

20/06/2017 - 6:04h

Não é uma polêmica a mais, apenas. Estamos tratando de coisas muito mais densas nesse episódio…

…Os eventos de São João para os nordestinos tem um significado similar ao que a Farroupilha representa para os gaúchos; ou o carnaval para os cariocas; ou os Bois para os maranhenses e amazonenses…

…Dizer que o público pede mudança é uma resposta elaborada pela indústria cultural e repetida pelos papagaios e gaiatos que, simplórios e acomodados, preferem não pensar nos prejuízos que a invasão pop/romântica/sertaneja/brega causa às expressões culturais regionais do Brasil…

…Do alto de seu sucesso breganejo, Marília Mendonça, desafiou a lógica nestes dias. Fez valer seu peso no mercado atual e teceu críticas aos artistas regionais que acham que têm direito a espaços em seus ‘quintais’. Tinha como endereço a Elba Ramalho, paraibana, que já cantou praticamente todos os estilos, mas que mantém um repertório e um chamego especial com a sua própria cultura…

…Marília Mendonça ignora, na verdade, que o Brasil não é um só e que a música que ela faz não é unanimidade; esquece que ela é produto de um sistema que usa e abusa de determinados artistas e depois os descarta, como se fossem papel velho; e que ela, jovem ainda, terá de manter um nível de composição que já demonstrou ter se quiser se eternizar…

…”Há espaço para todo mundo”, dizem os apressadinhos. Não sabem que a briga é por melhores espaços e que os regionais lutam com unhas e dentes para ao menos tornar a disputa mais racional…

…Os artistas que cantam suas regiões estão certos quando criticam os produtores que simplesmente colocam o interesse financeiro deles acima de qualquer coisa. O São João da Paraíba não vai deixar de ser grandioso e nem vai perder turista se naqueles festejos deixar de tocar Marília Mendonça, vai?…

…Discutindo sobre o tema na internet com uma colega, ela, contaminada pelo argumento falacioso de quem age apenas com objetivo de ganhar dinheiro com o show business, me disse nas entrelinhas o seguinte: “você não sabe o que fala, eu sou nordestina e digo que lá o pessoal quer ouvir o sucesso nacional que é Marília Mendonça!”…

… – Sim. Aqui no Tocantins também a galera quer ouvir, ir ao show, bater na mesa, encher a cara, namorar, transar e ouvindo a moça. MAS TEM QUE SER NO SÃO JOÃO?…

…Tenho, ao longo de meus 28 anos de Tocantins, procurado ser paciente e tolerante. Todos (ou quase todos) sabem de minha origem sulista, que ainda marca meu jeito, meu gosto, meu modo de ver e sentir. Mas sabem também (aqueles que me conhecem) que tenho sido defensor ardoroso da cultura tocantinense e faço isso por motivos bem simples: acho que esta é uma obrigação minha por estar nesta terra que me deu ‘régua e o compasso’, no dizer de Gil; faço porque gosto das coisas e das pessoas daqui (do que elas comem, o que elas vestem, o que elas cantam e dançam); e faço também por estratégia econômica e comercial (não para mim, mas para os artistas e, por consequência, para a sociedade local)…

…Veja e entenda por que gritam os artistas nordestinos e no que são (ou deveriam ser) acompanhados por todos os outros que cantam suas regiões: o fortalecimento da cultura local traz riquezas ao povo do lugar e mantém acesa a tradição, o sentimento de pertencimento, a chama da nacionalidade. Você acha que Marília Mendonça gasta seu dinheiro na Paraíba?…

…-Olhe minha amiga. Você, com seu pensamento enviesado, pode até dizer com todo orgulho (se quiser) que nasceu no Nordeste, mas não encha mais a boca para dizer que se sente nordestina. Ser nordestino é ter um estado de espírito; e estar encharcado da cultura regional; é amar e respeitar as manifestações típicas do lugar…

…Penso assim!

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