Os escravos da precisão

Por: Paulo Henrique Costa Matos

16/11/2015 - 17:21h

O sistema escravagista de exploração da mão-de-obra no Brasil foi abolido em 1888. Todavia em pleno século XXI estamos assistindo a um vertiginoso crescimento do trabalho escravo, flagradonas fazendas de gado, no desmatamento e no agronegócio, mas também nas cidades, na construção civil, no setor de confecções e até em cadeias de restaurantes.

 

Em 2014, de acordo com um balanço divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sobre os 20 anos de atuação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), a indústria de construção civil liderou o ranking das atividades com maior número de trabalhadores resgatado de situações análogas à escravidão, com 452 dos 1.674 casos flagrados em 170 operações de fiscalização e resgate de trabalhadores vitimados por esta situação.

 

Após a construção civil, a agricultura ocupou o 2° lugar com 358 casos; a pecuária o 3° com 238 resgates; a extração vegetal o 4° com 201 casos; e a de carvão vegetal o 5° com 131 trabalhadores resgatados. Também apareceu no ranking a indústria da confecção com 115 casos; e a indústria madeireira com 54 vítimas. Já a categoria Outros, que contempla as atividades de extração mineral, alimentação, olaria, navio de cruzeiro, transporte rodoviário, fabricação de artefato de cerâmica e pesca registrou outros 125 casos análogos à escravidão.

 

Em 2015, até julho, houve o registro de cerca de 500 trabalhadores libertos, inclusive sendo registrado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) o resgate de 11 trabalhadores que estavam em situação análoga a de escravo em obras para as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Os trabalhadores resgatados eram de diferentes partes do país e trabalhavam para a empreiteira Brasil Global Serviços, que faz obras no Projeto Ilha Pura, complexo residencial que abrigará a Vila Olímpica, além de construções na Barra da Tijuca. A empreiteira Brasil Global conta com cerca de 300 trabalhadores e foi contratada pela Odebrecht e pela construtora Queiroz Galvão, envolvidas na operação Lava-Jato.

 

Os escravos contemporâneos são reféns de um modelo econômico que prioriza o crescimento econômico (sem alcançá-lo e em crise!) em detrimento do desenvolvimento integral da sociedade brasileira. Nesse sentido, esses novos escravos são escravos da precisão, da carência de dignidade humana, da justiça social, do respeito à legislação trabalhista, de políticas públicas que realmente mude a sua qualidade de vida, de qualificação profissional que permita terem renda suficiente para a família e não ficarem totalmente dependentes de maus patrões.

 

Os escravos da precisão são vítimas de um modelo econômico que os expulsam de suas terras, os submetem às condições precárias de trabalho e os tornam descartáveis e vulneráveis socialmente. São milhões de brasileiros que hoje vivem nas cidades o drama da falta de saúde pública digna, do aumento da inflação, do arrocho salarial, da falta de renda mensal.  É assim que muitos deles na maioria das vezes, por falta de inclusão social real, acabam dependendo totalmente dos parcos recursos de algum programa governamental de transferência de renda, como é o caso do Bolsa Escola ou do Bolsa Família, do recurso da aposentadoria de algum membro da família, dos trabalhos informais desenvolvidos na cidade (bicos) e do trabalho escravo no campo ou nas cidades.

 

Os escravos da precisão aceitam qualquer tipo de trabalho, quase sempre uma condição para não morrer de fome, não sofrer a vergonha de ver os filhos passarem por todo tipo de necessidades e ser dominado pelo sentimento de total impotência ou injustiça; sentimentos que um dia Lula, Dilma e muitos petistas também sentiram, mas que hoje parecem ter esquecido, optando por deixar de enfrentar o desafio da mudança social, de construção da justiça social e construção de um novo projeto para o país. Por isso os escravos da precisão continuam a crescer no Brasil atual.

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