Dia do Professor ou dia de qualquer um

Por: Getúlio Dutra

23/10/2015 - 18:16h

 
Dia quinze de outubro, comemorou-se o dia do Professor, a mais digna das profissões, dizem alguns.

 

Eu ministrei aulas no dia quinze em um dos estabelecimentos de ensino que trabalho aqui na cidade. Bonito isso, né?. Ministrei, sim, porque por questões óbvias eu não dou aula (aliás, não dou nada).

 

Nobre leitor: acreditas que nenhum, nenhunzinho aluno cumprimentou-me pelo dia?

Bom, nem os colegas, nem a direção etc…

 

Esta profissão tende a desaparecer, porque hoje tem “coisas” mais importantes.

Há pouco conversava com um amigo sobre os ruídos que deixamos entrar nas nossas vidas e como lidamos com essas coisinhas muitas vezes enjoadinhas.

 

Tempos atrás, saía do trabalho e deixava lá os telefones, ramais e seus gritos laborais até o outro dia. Hoje, eles vêm comigo e nem no banheiro me deixam em paz.

 

Quem nunca foi interrompido durante um momento íntimo daqueles de tirar o fôlego e a porcaria do artefato começar a te chamar, prenunciando bronca, hein? Pior se o número for o da patroa, SEU CAFAJESTE!

 

Aí temos o bi-bi-bi do microondas, a campainha da porta e o porteiro eletrônico.

Se o celular fala, a buzina do demente atrás de ti urra, lembrando que o sinal abriu… SEU BOCABERTA!

 

Se pensarmos com serenidade – sim, é possível, mesmo sóbrios – somos verdadeiras muralhas intransponíveis de sanidade, perceberam isso?

 

Toda a vez que se inicia um novo ano penso em fugir dessa demência diária à qual fui amestrado desde a mais tenra idade – parece papo de canibal – e me adequei numa boa, salvo alguns pés-na-bunda de moçoilas voláteis e uma que outra rejeição por parte de moçoilas não tão voláteis assim.

 

Fugir talvez não, mas ficar olhando de longe essa divertida esculhambação numa casinha lá longe, sem o risco de estacionar um carro amarelo rebaixado tocando “tchutchuca levanta a perninha, tchutchuca vou comer tua baranguinha” e outras pérolas do tipo.

 

Enfim, estou entrando no quinquagésimo oitavo ano de vida e nunca sei o que dizer pros amigos além do clássico “vamos adiante”, mas vou tentar traduzir o que meu coração tenta, me puxando o braço que nem criança querendo mais uma fatia de bolo.

 

Gostaria que a natureza fosse mais generosa com os excluídos. Com os excluídos emocionais, aqueles que não tem sensibilidade, que não foram agraciados com a tolerância e o amor aos semelhantes; com os insensatos que passam por cima de muitos para afirmar sua insignificante arrogância. E àqueles que pensam que dinheiro é o fim e não o meio para se chegar a algum lugar.

 

Acho que ainda não agora, mas futuramente vou querer aquela casinha pintada de azul lá no fundo do campo com cachorros e alguns patos na beira daquela lagoa ali do lado. Se tiver algumas ovelhas e bergamoteiras (que aqui se chamam mixirica), não fico brabo.

 

Acho que não verei mais um aluno levando uma maçã para o professor, um aluno respeitando seu professor, um pai repreendendo seu filho porque faltou com respeito ao professor, ao invés de ir na coordenação falar mal do professor, invocando a condição de boçal.
Um abração e que sejamos melhores pra nós e, consequentemente, pros que nos cercam.
Obrigado por serem meus amigos e amigas, vocês são demais.

 

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